quinta-feira, 20 de junho de 2013

Trabalho e saúde mental: da pesquisa à ação

Trabalho e saúde mental: da pesquisa à ação (Dejours)

Dejours apresenta questões relacionadas à saúde mental e o trabalho. Ele esclarece que o estado de saúde mental relaciona-se estreitamente com os mecanismos psíquicos os quais o trabalhador faz uso para exercer suas atividades mesmo diante das cobranças que lhe são feitas. Cobranças, inclusive, que desencadeiam os conflitos entre as organizações e o trabalhador, comprometendo seu funcionamento psíquico. Por meio de suas pesquisas, verificou-se que os trabalhadores apresentam-se capazes de se proteger dos efeitos negativos das empresas.
O autor prega ainda, que se deve ir para além do modelo casualista que relaciona o ambiente de trabalho à patologia individualizada do trabalhador – ou seja, não se deve reduzir a patologia apenas às condições físicas ou biológicas, é necessário considerar o caráter social da organização –, bem como transcender os modelos tradicionais da medicina.

Sob a perspectiva psicopatológica, estuda-se os estados da saúde mental, considerando todo o contexto em que vive o trabalhador, entendendo-o como resultado das relações com o coletivo, ou seja, com os grupos aos quais pertence.

Saliente-se que Dejours pesquisa – na época, em uma indústria nuclear – acerca do individualismo triunfante, caracterizado por comportamentos individuais considerados preocupantes que podem ser desencadeados pelo distanciamento entre o trabalho prescrito e o real – o que se pode chamar de desvio de função –, dando origem a conflitos que, por sua vez, resultam no sofrimento psíquico.

No decorrer da investigação, Dejours identificou que os trabalhadores, diferente dos executivos, utilizavam-se de mecanismos de defesa que são decisivos no que diz respeito à linha que divide o sofrimento que estimula para a ação e o sofrimento patológico.

DEJOURS, Christophe. Trabalho e saúde mental (cap.3). In____Psicodinâmica do trabalho,p.45-65.São Paulo:Atlas,1994.



Discente: Edla Gama.  


Trabalho e saúde mental: da pesquisa a ação




Dejours propõe nesse texto uma (re)visão sobre os conceitos tidos como básicos quando se tenta analisar os meandros da patologia no trabalho. Ele enfatiza a importância do social, através das interações sociais em toda dimensão operacional, e o estigma embotado pelas abordagens clássicas do estudo de saúde mental, do trabalhador quase que alienado, fora do contexto histórico/político; imagem que gerou um mal estar do profissional psi dentro das organizações.
A partir dessa base o autor apresenta uma indústria nuclear e uma pesquisa desenvolvida na mesma, por razão de que os funcionários apresentavam uma série de comportamentos que indicavam que havia ali algo que não estava ‘bem encaixado’, partindo da construção do discurso sobre a importância do individualismo no trabalho, e investigando como tal individualismo se faz presente além dos aspectos do sofrimento psíquico que estão no cerne do seu aparecimento.
Um aspecto extraído junto da base operária é a prática do “quebra-galho” constantemente subjugada e desmerecida e que tem na sua inteligência astuciosa/prática não um item de aquisição de valor, mas como um defeito remediável.  Essa prática tão comum é retrato da defasagem já cita aqui entre o que é prescrito como norma trabalhista e o que de fato é executado. Envolve ainda confiança e a polemica ‘tática do segredo’ que pode transformar o não-dito em algo nefasto para as organizações, gerando um mal-estar, um ambiente de desconforto, fechando os grupos sobre si mesmos e fazendo aflorar a desconfiança, o rancor e a sabotagem.
Na pesquisa junto aos empresários Dejours constatou um movimento de devolução desse ‘espaço fechado’, culpabilizando a suposta individualidade exacerbada dos funcionários, a incompetência e a falta de preparo técnico das equipes, afastando profundamente administração – gerencia – operários, desconsiderando que estes fazem parte da mesma cadeia de funcionamento que se intitula ORGANIZAÇÃO.
Assim Dejours se aprofunda na tese do individualismo discretamente apontando que esse é o menor dos problemas, porque antes de ser uma doença do novo século é um sintoma, que na organização surge como um mecanismo de defesa. Mesmo que pelos discursos pareçam que todos os problemas modernos de relação social residem na exacerbação individualista (não só nos escritórios, mas também fora deles) Dejours aponta que ao contrario do que se prega o trabalhador não se torna passivamente egocêntrico, mecanismos da empresa fazem com que ele atue de forma a defender suas subjetividades, não em um passivismo egoísta, mas em uma extrema (e por vezes exaustiva) atitude de se preservar.
É desse mecanismo de defesa, o autor sugere que se faz o ponto de partida para as discussões, do que esses operários/alunos/pacientes estão se auto preservando tanto? O que no mecanismo empresarial/acadêmico/clinico está o levando a se manter em uma forma insustentável de coexistência?  Esse deve ser o ponto de partida para a construção de um campo/espaço de debate e construção sobre as interações sociais no trabalho e suas consequências no desenvolvimento da organização e na saúde psíquica dos trabalhadores.  

 DEJOURS, C; ABDOUCHELI, E; JAYET, C. Psicodinâmica do trabalho.           
 

Discente: Taís Lima

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Atividades profissionais do psicólogo e redefinições estratégicas nas organizações.

Atividades profissionais do psicólogo e redefinições estratégicas nas organizações (Zanelli)

O título supracitado refere-se ao texto em que Zanelli trata de questões indispensáveis à formação do psicólogo organizacional. Inicialmente, ele apresenta as reinterpretações que devem ser feitas pelos profissionais e organizações, pois, encontramo-nos em constante curso cujas transformações são intensas e contínuas, demandando mudanças, fazendo com que haja a necessidade de adaptação das organizações. Estas precisam estar prontas para perceber o que o ambiente lhe solicita. Para tanto há de ter flexibilidade e eficiência interna, caracterizada pela vinculação, preparação, conhecimento e atitude daqueles que a compõem.

Para atingir o que se propõe acima, faz-se necessário que haja redefinições estratégicas das organizações. Estas redefinições são caracterizadas por mudanças, nem sempre, ou melhor, na maioria das vezes, não são bem vistas, já que trazem consigo o medo, o desconforto da ideia de não saber lidar, a incerteza de habilidade para atingir (ou não) os objetivos propostos. No entanto há de convir que a mudança também possa trazer benefícios se for vista como possibilidade de redirecionamento que está atrelado a aprendizagem, a autonomia, a horizontalização das relações. Estas ações são inerentes às nas organizações que almejam adaptar-se às mudanças no meio externo, pois se não amoldar-se, não poderá sobreviver a estas. (Zanelli, 2009)

Nessa perspectiva, a gerência necessita reconhecer as mudanças, adquirir um caráter participativo e planejar-se a fim de formar colaboradores críticos, capazes de fomentar ideias, propor soluções. 

Quanto ao psicólogo, espera-se que deixe de ser um aplicador de técnicas, para atuar como um capacitador estratégico, agindo como influente na mudança, participando dos planejamentos, assessorando a organização e seus colaboradores para o crescimento de ambos.

ZANELLI, J.C. Atividades profissionais do psicólogo e redefinições estratégicas nas organizações. In: ______. O psicólogo nas organizações de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Discente: Edla Gama
 


Atividades profissionais do psicólogo e redefinições estratégicas nas organizações (Zanelli)


Zanelli inicia este texto abordando as características da atual situação do mercado pela flexibilidade, instantaneidade, etc. O autor se propõe, então a explicitar, os conceitos intrínsecos nos vínculos, nos elos contidos nas indeterminadas estratégias necessárias na gestão das organizações.

Esses vínculos estão sendo constantemente modificados por influências externas e internas, através de uma descentralização crescente do domínio do poder, que tem levado á necessária revisão das expectativas, metas e valores dentro das empresas.

Esse poder está intrinsecamente ligado à aquisição de conhecimento e a capacidade de aprendizagem, interessante a diferenciação levada pela dupla responsável por conduzir a discussão, de que a aprendizagem organizacional não simboliza a soma das aprendizagens individuais; não é uma ciência exata, a distribuição de conhecimento e aprendizado tangencia as competências, estruturas e capacidade de cada funcionário envolvido no processo de gestão organizacional.

A intervenção do colega na sala relacionando esse conteúdo a o vídeo de Mundo S.A se faz pertinente, pois podemos ver como o investimento nos funcionários pode gerar mais retorno do que uma modernização mecânica, por exemplo.

Essa reestruturação da qual eu falava é ponto e local de intervenção do profissional de psicologia inserido nas instituições; me chamou atenção o fato de que o autor trás medidas pró-ativas para ilustrar atitudes possíveis na tentativa de revitalizar esses desgastados sistemas de interação social dentro de uma empresa, fábrica ou qualquer instituição. Apresento então os pontos que seriam:

·         Integrar suas percepções a dos outros;

·         Procurar validar suas percepções através do consenso da efetividade no grupo;

·         Além de possuir e atuar sob sólidos referenciais buscar inovar e criticar esses próprios referenciais;

·         Trabalha considerando diferentes possibilidades e cenários;

·         Precisa compreender suficientemente bem as variáveis e as formas de atuar sobre as mesmas;

·         Necessita do reconhecimento do que suas ações resultaram no ambiente, na empresa, etc.

Outro conceito importante apresentado foi o Empowerment que basicamente significa atribuir poder e importância, conscientizar todo e qualquer funcionário sobre seu papel e relevância na grande máquina que é uma empresa.

Fica claro na fala do autor a importância para o psicólogo de observar, reconhecer e compreender as interações e processos sociais presentes na empresa possibilitando assim identificar aspectos positivos (pensamentos empreendedores, motivação, autoestima) e também os negativos (pessimismo, insatisfação, ceticismo). Assim caberia ao psicólogo não apenas mediar ou resolver conflitos, como um bombeiro chamado nas emergências pontuais. Antes de qualquer coisa, caberia a ele conduzir aquilo que Zanelli denomina planejamento participativo – uma forma integrada de atuar que permite a empresa crescer e oferecer bons frutos aqueles que estão inseridos nela.


Referências:

ZANELLI, José Carlos. Capítulo três. O psicólogo nas organizações do trabalho.

Discente: Taís Lima

sábado, 8 de junho de 2013

Enrique Pichon Rivière

Contribuições de Enrique Pichon Rivière

Nascido (1907) em Genebra, Enrique Pichon Rivière, é exemplo de resiliência, pois sua vida é marcada de mudanças bruscas e perdas significativas. Ainda criança, muda-se para a Argentina, depois da morte de sua mãe e da união de seu pai com sua tia (irmã de sua falecida mãe).  Aos 18 anos, inicia os estudos em medicina, mais tarde, se especializa em Psiquiatria e, na Argentina, é quem estreita os laços da psicanálise com a psiquiatria. As máximas pichonianas vão de encontro às tradicionais que dissociam mente e corpo. Por isto, ele também é um referencial para a psicossomática.  

Pichon faz uso da dialética marxista nos estudos das diversas teorias que lhe baseiam e as integra às suas práticas de intervenção são elas: Ciências Sociais, Psicanálise, Psiquiatria e Psicologia Social. A partir de então, desenvolve o ECRO (Esquema Conceitual, Referencial e Operativo), conceituando-o como um conjunto articulado de conhecimento, um sistema de ideias que proporciona linhas de trabalho e investigação, aludindo ao campo, ao segmento da realidade sobre a qual se pensa e opera, possibilitando uma modificação criativa ou adaptativa.

É um aparelho de pensar que está estruturado na mente (a partir das representações internas do sujeito), no corpo (representação do esquema corporal) e no mundo (representações do ambiente ecológico e social do sujeito). É o que permite o sujeito distinguir, sentir, organizar e operar na realidade. Saliente-se que o sujeito pichoniano é visto não em uma situação de harmonia com o mundo, mas em uma relação conflitiva e contraditória. O sujeito aqui é formado, ou melhor, é o resultado da interação entre os indivíduos, os grupos e classes, indicando sua carência de socialização.

Pichon também desenvolve a Teoria do Vínculo, conceituando-o como uma estrutura complexa e multidimensional que abriga sistemas de pensamentos, afetos e modelos de ação, maneira de pensar, sentir e fazer com o outro, que constituem as primeiras sustentações do sujeito e as primeiras estruturas identificatórias que darão início à realidade psíquica da criança. Este preceito pode remeter às socializações primária (que acontece no seio familiar) e secundária (acontece nas demais instituições além da família).

Em sendo assim, admite-se que o sujeito já nasce imerso em uma trama vincular que envolve expectativas em torno dele, antes mesmo do seu nascimento. Há de saber da incapacidade de sobreviver sem a assistência do outro. A presença do outro para o sujeito reconhecer a si mesmo é de extrema importância.

Saliente-se que a noção de Grupo Operativo nasce da técnica terapêutica de atendimento grupal – inclusive utilizava-se dos esportes para tal – que, inicialmente fora destinada a portadores de psicoses, pacientes do Hospital Mercedes, a fim de sua ressocialização. Mais tarde a técnica passa a ser usada nos âmbitos organizacionais, educacionais etc.

O Grupo Operativo é um esquema idealizado por Pichon para avaliar o movimento no interior de um grupo durante a realização de uma tarefa e seu resultado final, quando se tornam manifestos os conteúdos que no início do processo encontravam-se latentes. O princípio básico é promover, por meio de técnicas integrativas, o processo de mudança do grupo. Esta mudança acarreta no medo das perdas das condutas existentes e o medo do ataque da nova situação.

Para auxiliá-lo no funcionamento do Grupo Operativo, Pichon faz uso do que chama de cone invertido, um esquema de vetores que verifica a operatividade no grupo. Estes vetores são:

·    Pertença: sentimento de fazer parte do grupo.
·    Cooperação: contribuição para o desenvolvimento do grupo.
·     Pertinência: centramento nas tarefas.
·    Comunicação: intercâmbio de informações.
·    Aprendizagem: conscientização da natureza real da tarefa.
·   Tele: empatia entre os participantes.

Fonte da imagem: http://blogeleuza.blogspot.com/2008/02/cone-invertido-hpichn-rivire.html

Os indivíduos assumem diferentes papéis nos grupo:

·   Líder de mudança: é o componente que provoca mudança através de sugestões.
· Líder de resistência: é o que tenta manter o grupo na mesma situação em que se encontra, ou seja, é o conservador.
·   Porta-voz: é o que traduz os sentimentos e as ideias que circulam no grupo.
·  Bode expiatório: quem recebe a carga negativa, as reclamações do grupo, deixando-o mais leve e produtivo.
·   Sintetizador: é o que ouve, percebe o que está se passando no grupo.
·  Coordenador: quem sinaliza as dificuldades que impedem o grupo de enfrentar as tarefas. Ele ajuda os membros a pensar.
·  Observador: quem observa silenciosamente e registra suas observações que servirão para as hipóteses acerca do grupo.


Em suma, estas foram algumas das relevantes contribuições de Pichon para as organizações em geral.

PICHON-RIVIÈRE, Enrique. Processo Grupal. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Discente: Edla Gama




Enrique Pichon Rivière


A discussão acerca os postulados teóricos de Enrique Pichon Rivière (1907 – 1977) perpassa diretamente pela sua diferenciada estória de vida marcada pela interculturalidade proveniente de sua precoce saída de seu país natal Suíça para a Argentina, ainda muito pequeno.

Essa mudança pontua sua forma de pensar e agir perante as disciplinas que ele vem a encarar: a Medicina, a Psicanálise, e porque não, as ciências sociais de maneira que ele foi envolvido (em especial na juventude) em vanguardistas movimentos culturais.

Assim atuou como pioneiro em trazer a psicanálise para ‘dentro’ de seu consultório médico e ao fundar a Associação Psicanalítica Argentina (Argentina, aliás, conhecida até hoje pela tradição psicanalítica).

Com o desenvolver das perspectivas conceituais destaca-se: o ECRO "Defino o ECRO como um conjunto organizado de conceitos gerais, teóricos, referidos a um setor do real, a um determinado universo de discurso, que permite uma aproximação instrumental ao objeto particular (concreto). O método dialético fundamenta este ECRO e sua particular dialética" PICHON.

Sempre influenciado pela perspectiva social ele considerou aspectos dialéticos da interação social humana, divergindo do posicionamento praxe até então, destacando a importância do outro na construção do seu construto sobre subjetividade.

Assim o vínculo seria uma importante articulação entre as subjetividades de cada um dos sujeitos, marcados pela interação social, importantes para as significações sociais.

Pichon pontua os diferentes níveis onde essas significações sociais ocorrem, a saber, psicossocial (ao nível do individual), sócio-dinâmico (grupos), institucional e comunitário.

Olhando do século XXI parece que o pensamento de Pichon não fez nada além de esclarecer o óbvio; a relativação cultural se faz importante aqui para compreendermos como esses pensamentos que afirmavam a intervenção direta e indireta do ambiente externo no meio interno do indivíduo.    

Destacam-se ainda os conceitos de Cone invertido – esquema de vetores que envolvem aspectos das interações dentro de um sistema e Grupo Operativo – que seria o movimento em um grupo na realização de uma determinada tarefa assim como seu resultado final: quando se tornam manifestos os conteúdos que no inicio do processo encontravam-se latentes, ou seja, aqueles que estavam na base do cone.

O grupo responsável por guiar a apresentação trouxe ainda os papéis exercidos pelos diferentes sujeitos dentro de um sistema (por ser alguém consciente dos aspectos sociais nas instituições humanas Pichon conseguiu visualizar a execução de papéis como o sabotador, o líder dentro da dinâmica empresarial).

Por fim é importante destacar o aspecto visionário de Pichon ao compreender os sistemas e a própria modernidade como estrutura complexa, mutável que se recicla, se altera e evolui continuamente.

Referência

Artigo publicado originalmente na página Webhttp://www.geocities.com/Athens/Forum/5396/ecro.html da Escuela de Psicología Social del Sur - Quilmes - Argentina, aqui publicado com a gentil autorização da autora.

Tradução para o português de Marco A. F. Velloso

** Gladys Adamson é diretora da Escuela de Psicología Social del Sur e da Escuela Argentina de Psicología Social. Artigo publicado no site do InterPsic: Disponível em: <http://www.interpsic.com.br/saladeleitura/EcroPichon.html> São Paulo. 2.000

Discente: Taís Lima

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações & Situação da Formação e das Atividades de Trabalho

Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações (Dejours) & Situação da Formação e das Atividades de Trabalho (Zanelli)

Através de seus estudos acerca das psicopatologias como oriundas dos ambientes de trabalho, Dejours tem contribuído para conceituação do sofrimento, bem como a investigação de sua etiologia, sugerindo que suas raízes encontram-se na relação do homem com o trabalho.

Seu despertar para o sofrimento humano emerge dos aspectos que envolvem a revolução industrial e o capitalismo: crescimento da produção, robotização, mecanização, fragmentação das tarefas, êxodo rural, dentre outros.  A precariedade da época era de se assustar, pois os trabalhadores viviam menos, o número de acidentes era elevado, o trabalhador não tinha apoio de leis trabalhistas. A situação era de sobreviver, como trabalhar só para ter o pão, e não viver além das necessidades fisiológicas. Esta situação, inclusive, fora chamada de “miséria operária”.

O sistema rígido do trabalho torna o ambiente organizacional opressor, ameaçador, sacrificante, fazendo emergir uma sensação de incapacidade no trabalhador e, consequentemente, seu sofrimento, desequilibrando-o psiquicamente, o que é refletido no corpo. Desta forma, o sujeito torna-se vítima do seu trabalho, embora seja beneficiado pelo mesmo.

Dejours descreve os sofrimentos insuspeitos que influenciam, a favor ou contra, no desenvolvimento do sujeito no ambiente de trabalho. São eles: o sofrimento singular que abrange uma dimensão diacrônica da vida do sujeito, pois é construído no decorrer da sua vida psíquica; sofrimento atual, que se encontra em uma dimensão sincrônica; o sofrimento criativo, que faz com que a pessoa desenvolva estratégias defensivas para lidar com as opressões da organização do trabalho e consiga manter sua saúde; e o sofrimento patogênico. Este funciona de modo contrário ao anterior: aqui a ação produzida pelo sujeito é desfavorável para a sua saúde.

Em sendo assim, sofrimento mental se constitui na luta do sujeito contra as adversidades da organização do trabalho, que pode acarretar a doença mental, pois em sua dinâmica, pode proporcionar elementos que favoreçam a saúde ou o processo de adoecimento.

Enquanto psicólogos em formação, há de pensarmos em nossa prática profissional no ambiente organizacional. Para tanto, conta-se a contribuição de Zanelli que trata em seu texto “situação da formação e das atividades de trabalho”, de importantes questionamentos sobre a formação e atuação do psicólogo organizacional no Brasil.

Ele se debruçou sobre a identificação e a análise das necessidades do psicólogo e das demandas organizacionais. Questões como o processo de ensino, conhecimento, habilidade, abordagens teóricas, métodos, instrumentos, atuação, profissional, dentre outros, são abordados.

Zanelli faz crítica ao processo de ensino, pois direciona a formação dos psicólogos para o modelo médico, não preparando psicólogos organizacionais, considerados agentes de mudança, devendo estar preparados para as demandas sociais, dos trabalhadores etc. A atual prática universitária dificulta a transformação dos ambientes organizacionais. Sugere-se que haja mudança nas matrizes curriculares ou que ampliem a formação organizacional para atender as demandas da contemporaneidade.

DEJOURS, C. Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In: CHANLAT, J.F. O indivíduo na organização. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 1996.


ZANELLI, J. C. Situação da Formação e das Atividades de Trabalho. In: ______ O Psicólogo nas Organizações de Trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2009.

Discente: Edla Gama



Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações (Dejours) & Situação da Formação e das Atividades de Trabalho (Zanelli)


No texto “Situação da Formação e das Atividades de Trabalho” Zanelli (2009) destaca a precariedade do ensino da psicologia como ciência sobressaindo-se a matéria psicologia organizacional, apontando algumas possíveis causas para que isso aconteça. 

O autor prossegue abordando a história da psicologia organizacional no Brasil, com paralelos entre a institucionalização da profissão com o desenvolvimento da psicologia clínica em detrimento da organizacional e da educacional.

O texto aborda ainda as amplas funções (muitas das quais desconhecidas) dos profissionais organizacionais destacando que muitas vezes além de não terem contato com muitas delas na sua formação eles ainda se apresentam despreparados para muitas das atividades que lhes são atribuídas. O que causa uma ‘má impressão’, no meio trabalhista com uma estereotipação que atinge inclusive aqueles que se inserem na academia já direcionados para a atuação clínica (associada erroneamente a um liberalismo ocupacional). 

Tive uma sincera dificuldade em traçar um paralelo entre os dois textos trabalhados, uma vez que eles estão trabalhando temas com perspectivas completamente distintas e não pude acompanhar a discussão que costuma esclarecer muitos aspectos do tema semanal, mas destacaria o subtópico quase final do texto de Zanelli sobre o predomínio do modelo médico que, ao elucidar sobre como esse modelo remediativo de ‘reinserção na normalidade’ confere status a psicologia clínica dentro da Psicologia geral. Esse modelo reflete diretamente na maneira como esse psicólogo irá se inserir na organização (o autor destaca que os psicólogos organizacionais vêm de formações clínicas).

Assim ele entra na empresa com o ideal de adaptar o profissional as condições – muitas vezes adversas – de trabalho.  

Esse pensamento ‘bate de frente’ com a proposta de Christhophe Dejours (1996). A afirmação de que ao mesmo tempo em que o homem é beneficiário do trabalho, ele é uma vitima dele, sem dúvida sintetiza e reflete os direcionamentos que o autor toma em suas abordagens teóricas sobre o trabalho.

Seguindo por uma linha psicanalítica o autor aborda diferentes aspectos presentes na psicodinâmica trabalhista, remetendo a conceitos que o sujeito operário trás consigo para a execução do trabalho, como o jogo infantil, o teatro do trabalho, e os elementos por trás da escolha da profissão; destacando entrelinhas que ao contrário do que se preconiza o trabalho não é uma condição intrínseca do homem; pelo menos não a exploração do trabalho alheio.

Dejours destaca ainda algumas classificações do sofrimento, sendo que as que mais me chamaram atenção foram dois opostos: o sofrimento criativo – aquele que se torna produtivo e eficiente e o sofrimento patológico – que pode estar por trás de muitas somatizações trabalhistas mundo afora.


O sofrimento, no entanto destaca o autor se origina na história de vida desse sujeito e se reproduz no seu trabalho, sendo este sim intrínseco a condição humana. Não sei se eu não consegui captar ou se não era a intenção do autor abordar qual então seria a função do psicólogo nessa instituição.

Referência:

ZANELLI, J. Carlos. Cap. I. Situação da Formação e das Atividades de Trabalho. O Psicólogo nas Organizações de trabalho..

DEJOURS, C. Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In: CHANLAT, J.F. O indivíduo na organização. 1ª ed. São Paulo: Atlas, 1996.

Discente: Taís Lima